Globalismo e engenharia social

Globalismo e engenharia social

Tempos atrás, o saudoso Mons. Sanahuja nos alertou[1] que todas as grandes conferências internacionais dos anos 90, organizadas pela ONU, pretendiam elaborar um projeto de poder global, totalitário. Tais conferências propõem dar uma resposta única (e universal) para todas as questões humanas[2], independentemente do contexto social, econômico, político etc. Pois bem, para que isso funcione seria necessário um processo de colonização da inteligência e do espírito humano para que este processo seja assimilado facilmente pelo senso comum. Além disso, para que as ideologias tivessem uma aprovação eficaz, se fazia necessário dar a elas um “aspecto religioso”.

O que isso quer dizer, afinal?

A religião dá à vida um sentido elevado, sobrenatural. Por isso, as ideologias disseminadas por estes organismos globais ganham um aspecto transcendente, sagrado. Sendo assim, essa proposta de colonização se torna uma espécie de “nova religião universal”. Na Antiguidade, por exemplo, os impérios buscavam uma unidade religiosa para que a dominação estivesse garantida. Em tempos mais modernos, são as ideologias totalitárias que apresentam esse aspecto dominante (o marxismo, o nazismo e o fascismo, por exemplo), adquirindo esse aspecto religioso que, por consequência, se torna inquestionável[3].

Antecedentes históricos

É importante saber de alguns fatos que antecederam essa tendência globalista de engenharia social. Tudo começou após o fracasso da Conferência de População, em Bucareste (1974). Neste evento, houve uma tentativa frustrada de impor ao mundo os projetos de controle de natalidade dos EUA. Países do Terceiro Mundo (Brasil, México, Índia, Paquistão, por exemplo) fizeram a grave denúncia de que os EUA estariam propondo um “imperialismo demográfico (ou contraceptivo)”. Em seguida, foi publicado um documento conhecido como Relatório Kissinger[4], cujo objetivo era neutralizar as acusações feitas aos EUA e propor três objetivos estratégicos[5]:

  1. Disfarçar as políticas de controle de natalidade sob a aparência de direitos humanos. Tais políticas de controle demográfico seriam apresentadas como direitos do indivíduo ou do casal;
  2. Estabelecer a alteração do padrão cultural e unificá-lo (incluso as crenças religiosas), para que seja possível fazer o controle de natalidade da população. Neste ponto, é que se encontra a origem da mudança do paradigma ético/moral e da tentativa de estabelecer de uma religião universal.
  3. Políticos nativos de países subdesenvolvidos seriam reeducados nas Universidades dos Estados Unidos e Grã-Bretanha, sob a aparente impressão de ser uma oportunidade de capacitá-los para melhorar e assegurarem a qualidade de vida dos seus países de origem. Porém, a intenção real seria a implementação de políticas globalistas e preservar os interesses dos países que os treinaram. Com isso, seria dissimulada a intenção de exploração de recursos naturais; a entrega da soberania jurídica e até territorial de suas nações.

Por conta disso, S. João Paulo II foi preciso quando mencionou que a especulação e a exploração desenfreadas provê os meios para incentivar uma divisão acentuada e intolerável entre as nações mais ricas e pobres. O mundo se torna desarticulado, fragmentado; a vida humana é banalizada; se apresenta uma separação entre valores e verdades dentro da comunidade acadêmica[6].

Tais objetivos promovem uma espécie de “guerra fria” entre os países do Norte e do Sul do mundo, porque sua finalidade é conseguir o domínio global pela imposição de uma colonização ideológica. Ou seja, todos devem aceitar um pensamento único – baseado nas propostas do Relatório Kissinger – que foi inspiração para as conferências internacionais da década de 90 (já citadas) promoverem os seus projetos de reengenharia social[7]. Por isso, a partir das ideias disseminadas se coloca em prática uma “nova sociedade”, com bases totalmente diferentes do que conhecemos. Tal proposta quer – de forma gradual, contínua e discreta – neutralizar e anular toda perspectiva transcendente do homem; dessa forma, há uma substituição por um novo sistema de valores: materialista, relativista e anticristão[8].

Exemplo de pautas progressistas

A imposição de uma “nova ética”, demonstra que aparentemente não existem princípios imutáveis, dos quais não há nenhuma negociação. Há concessão com ideias, comportamentos e, especialmente, “manifestações culturais e sociais” que claramente tratam-se de um neopaganismo anticristão velado. Parece-me que a decadência humana que se percebe atualmente nada mais é do que a consequência do desrespeito em relação à vida humana e a família[9]. Outro problema atual é a ditadura do politicamente correto, onde se exige que a religião não interfira em nossa conduta e pensamento. Por isso, as consciências individuais são corrompidas e as esferas da existência humana se tornam falsificadas[10]. Vejamos alguns exemplos:

Conferência sobre os Direitos Humanos, Viena (1993)[11]:

Considerando a importância da promoção e da proteção dos direitos de pessoas pertencentes a minorias e a contribuição de tal promoção e proteção para a estabilidade política e social dos Estados onde vivem essas pessoas, a Conferência Mundial sobre Direitos Humanos reafirma a obrigação para os Estados de garantir que as pessoas pertencentes a minorias possam exercer de forma plena e efetiva todos os Direitos Humanos e liberdades fundamentais sem qualquer discriminação e em plena igualdade perante a lei, de acordo com a Declaração sobre os Direitos de Pessoas pertencentes a Minorias Nacionais ou Étnicas, Religiosas e Linguísticas. As pessoas pertencentes a minorias têm o direito de usufruir a sua própria cultura, de professar e praticar a sua religião e de se exprimir na sua língua, tanto em privado como em público, livremente e sem interferências ou qualquer forma de discriminação. nº 19

[…] a Conferência Mundial sobre Direitos Humanos apela ao Centro para os Direitos do Homem para que providencie, a pedido dos Governos interessados e no âmbito do seu programa de serviços de consultoria e assistência técnica, uma peritagem qualificada sobre questões relacionadas com as minorias e os direitos humanos, bem como sobre a prevenção e a resolução de diferendos, para fins de assistência em situações potenciais ou atuais envolvendo minorias. nº 25

Conferência sobre a Mulher, Beijing (1995)[12]:

A crescente influência do setor não-governamental, em particular das organizações de mulheres e grupos feministas, tem sido um catalisador de mudanças. […] Por meio delas, as mulheres têm participado de foros e debates comunitários, nacionais, regionais e mundiais, e têm exercido forte influência, em todas essas instâncias. nº 26

[…] As organizações não-governamentais, as organizações de mulheres e os grupos feministas têm desempenhado uma função catalítica na promoção dos direitos humanos da mulher, mediante atividades em nível local, o estabelecimento de redes e a defesa dos interesses da mulher, e necessitam receber dos Governos apoio, incentivo e acesso à informação, a fim de poderem desempenhar essas atividades. nº 228.

[…] Em parceria com outras organizações não-governamentais, as organizações de mulheres e os grupos feministas deveriam ser encorajados a formar redes, conforme convenha, e a defender e apoiar a implementação da Plataforma de Ação pelos governos e organismos regionais e internacionais. Os governos deveriam comprometer-se a promover, […] mediante a criação de mecanismos especiais, o equilíbrio entre os gêneros em todos os comitês, conselhos e outros órgãos oficiais relevantes designados por eles, conforme convenha, assim como em todos os órgãos, instituições e organizações internacionais, especialmente pela apresentação e sustentação de mais candidatas mulheres. nº 298-299

Conferência contra o Racismo, a Discriminação e a Xenofobia, Durban (2001)[13]:

Observando com preocupação a persistência dos casos violentos de racismo, da discriminação racial, da xenofobia e de intolerância correlata, […] continuam a ser propagadas de uma forma ou de outra ainda hoje em dia. Alarmados pelo ressurgimento e persistência do racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata nas suas formas e manifestações contemporâneas mais sutis e, assim como por outras ideologias e práticas baseadas em discriminação ou superioridade racial ou étnica.

[…] A falha no combate e na denúncia do racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata por todos, especialmente pelas autoridades públicas e pelos políticos em todos os níveis, é um fator de incentivo à sua perpetuação. […] os Estados têm o dever de proteger e promover os direitos humanos e as liberdades fundamentais de todas as vítimas, e que devem adotar uma perspectiva de gênero que reconheça as múltiplas formas de discriminação que podem afetar as mulheres e que o gozo de seus direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais é essencial para o desenvolvimento das sociedades em todo o mundo. p. 07-08.

Todas essas propostas evidenciam que a sociedade e o Estado excluíram Deus, porque a lei da organização criminal tomou seu lugar, de forma sutil ou evidente. Prova disso, é quando o aborto se apresenta como “direito fundamental”[14] ou “serviço essencial”[15]. O pensamento moderno traz uma impressão de que o homem não precisa mais de Deus, numa ilusão de total autonomia[16].

Possíveis soluções (ou caminhos)

Como nos prevenir dessas armadilhas ideológicas?

“A obediência à verdade deveria ‘tornar casta’ a nossa alma, e desta forma guiar à reta palavra e à reta ação. Por outras palavras, falar para encontrar aplausos, falar orientando-se segundo o que os homens querem ouvir, falar em obediência à ditadura das opiniões comuns, é considerado como uma espécie de prostituição da palavra e da alma. A ‘castidade’ à qual o apóstolo Pedro faz alusão (1 Pd 1, 22) não é submeter-se a estes protótipos, não é procurar os aplausos, mas procurar a obediência à verdade”[17].

Como os cristãos devem agir?

Não podemos justificar nossa covardia e omissão, pois há uma tentativa real de promoção do “ministério da iniquidade”, que quer decidir sobre a vida humana; determinar o limite da morte; rejeitar as leis divinas e os princípios morais; atentar abertamente contra a família, caracterizando uma nova realidade no mundo[18]. Porém, não podemos esmorecer, porque:

Irremediável é o sofrimento pela verdade, […] inevitável a perseguição dos bons e, […] impreterível a necessidade de testemunho pessoal e social, individual e coletivo, o que nos é exigido como cristãos[19].

Portanto, nossa primeira atitude não deve ser de queixa ou de denúncia, por mais atrativo que isso seja[20]. Em primeiro lugar, devemos obediência a Jesus Cristo, que é exigente ao afirmar que a prova do nosso amor por Ele se dá na guarda dos seus mandamentos (Jo 14, 15). Só assim que nosso testemunho, pensamento e ações serão notados e promoveremos, de fato, uma mudança significativa.


[1] SANAHUJA, Mons. Juan Claudio. Poder Global e Religião Universal. Ed. Ecclesiae. Campinas, 2002.

[2] Cúpula da Terra (ECO 92), Rio de Janeiro, 1992; Conferência dos Direitos Humanos, Viena, 1993; Conferência de População e Desenvolvimento, Cairo, 1994; Conferência sobre a Mulher, Beijing, 1995; Conferência da ONU sobre Assentamentos Humanos, Istambul, 1996; Cúpula Mundial de Alimentação, Roma, 1996; Cúpula do Milênio, Nova Iorque, 2000; Conferência contra o Racismo, a Discriminação e a Xenofobia, Durban, 2001; Cúpula sobre Desenvolvimento Sustentável, Johanesburgo, 2002 etc.

[3] SANAHUJA, Mons. Juan Claudio. Poder Global e Religião Universal, p. 27-28.

[4] Memorando de Estudo de Segurança Nacional ou Relatório Kissinger tem a data de 24 de abril de 1974; é classificado como Memorando de Segurança Nacional 200, em 10 de dezembro de 1974 e é adotado pelo Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos em 26 de novembro de 1975, como nome de Memorando 314.

[5] SANAHUJA, Mons. Juan Claudio. Poder Global e Religião Universal. p. 28-29

[6] S. João Paulo II. Reunião com os Cientistas na visita ao Centro Ettore Majorana, nº 05. 08 de maio de 1993.

[7] O termo reengenharia social é utilizado nos documentos das Conferências Internacionais dos anos 90. Também faz parte da linguagem dos funcionários da ONU e representantes de ONGs que se comprometem com os planos globalistas. (cf. SANAHUJA, Mons. Juan Claudio. Poder Global e Religião Universal, p. 30)

[8] SANAHUJA, Mons. Juan Claudio. Poder Global e Religião Universal, p. 30.

[9] Ibid., p. 22

[10] Ibid., p. 24

[11] Conferir em: http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/viena/viena.html. Acesso em 25 de abril de 2020.

[12] Conferir em: http://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2013/03/declaracao_beijing.pdf. Acesso em 25 de abril de 2020.

[13] Conferir em: https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2015/03/durban-2001.pdf. Acesso em 25 de abril de 2020.

[14] RATZINGER, Joseph. Igreja e Modernidade, p. 115. Ed. Paulinas, 1992.

[15] OMS defende a prática do aborto como atividade essencial. Conferir em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/04/07/girao-critica-oms-por-defender-o-aborto-como-atividade-essencial. Acesso em 25 de abril de 2020.

[16] BENTO XVI. Audiência Geral, 07 de outubro de 2009.

[17] BENTO XVI, Papa. Homilia para os membros da Comissão Teológica Internacional, 06 de outubro de 2006.

[18] PAULO II, S. João. Homilia, 18 de agosto de 2002.

[19] SANAHUJA, Mons. Juan Claudio. Poder Global e Religião Universal, p. 23

[20] SANAHUJA, Mons. Juan Claudio. Poder Global e Religião Universal, p. 23

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