Precisamos falar sobre educação!?

Precisamos falar sobre educação!?

Muito se fala, se analisa e se opina sobre educação, seus desdobramentos e significados. Uma coisa que aprendi, com o estudo da Filosofia, é que os termos dizem o que as coisas são, demonstram sua origem, natureza, significado etc. Pois bem, que tal pensarmos em algumas questões relacionadas a este tema, inicialmente? Vamos lá: o que conhecemos sobre este termo, educação? Por que tal termo é usado de forma tão indiscriminada? Por que os problemas educacionais, na maioria das vezes, são tratados sem ao menos se avaliar suas causas e efeitos concretos? Qual a finalidade do processo educacional, originalmente?

O que conhecemos sobre esse termo: educação?

A diversidade do termo “educação” se dá por conta da variedade dos objetivos e funções educacionais que são disseminadas, especialmente no contexto moderno. Nesse sentido, considera-se tanto o significado mais amplo do termo quanto aspectos mais específicos: instrução, adaptação, habilidades ou formação de hábitos. Por conta dessa indefinição é que se perde de vista o verdadeiro significado do termo educação.

A etimologia do termo educação deriva-se do verbo latino educare, que significa criar, nutrir, acompanhar. Porém, comumente é confundido com outro termo latino educere, que significa dirigir, trazer para frente ou para fora. Essa confusão semântica já me parece um dos indicativos dos problemas educacionais, pois subverte o propósito, o objetivo ou a finalidade do processo educacional. O termo pedagogia, derivado do grego paidós e agogé, significa originalmente conduzir a criança. Notaram a semelhança do significado ou finalidade das palavras educação e pedagogia? Ainda assim, não é fácil usar uma expressão que indique todo o escopo da educação, pelos motivos já citados. Em tempos mais recentes, segundo Redden e Ryan (1973), foram usados os termos ensino e disciplina, com as seguintes referências:

Nesse sentido, entende-se por ensino a arte de transmitir ao jovem o conteúdo intelectual da civilização e, por disciplina, a iniciação dos jovens na vida moral da comunidade. (REDDEN e RYAN, Filosofia da Educação, 1973, p. 29).

Por que a palavra educação é usada de forma tão indiscriminada?

A palavra educação, assim como tantas outras, tem um significado amplo e também um restrito. Portanto, é importante fazer uma distinção entre estes, para evitarmos confusões. Neste ponto, é importante esclarecer que não me refiro à educação informal, que é o sentido amplo do termo, sendo esta a soma de todas as experiências adquiridas pelo indivíduo em que o conhecimento é adquirido, o intelecto é iluminado e a vontade é fortalecida. Nesta reflexão, tratarei apenas da educação formal, que é planejada de forma consciente e possui uma aplicação sistemática. Ela é exercida por várias instituições sociais, especialmente pela escola.

Por que os problemas educacionais, na maioria das vezes, são tratados sem ao menos se avaliar suas causas e efeitos concretos?

Se faz necessário compreender que o processo educacional é algo muito complexo. Porque considera-se a análise da natureza do educando; os objetivos a serem realizados no processo educacional; os meios mais convenientes para uma educação eficaz; os métodos a serem aplicados; meios de medir os resultados efetivos. Ainda assim, se faz necessário uma definição mais descritiva para que se tenha um melhor entendimento do processo educacional. Vejamos:

Educação é a influência deliberada e sistemática, exercida pelos educadores sobre os indivíduos, através da instrução, disciplina e desenvolvimento harmonioso de todas as potencialidades do ser humano: física, social, intelectual, estética e espiritual, de acordo com sua hierarquia essencial, por e para seus usos individuais e sociais, dirigidas no sentido da união do educando com seu Criador como fim último. (REDDEN e RYAN, Filosofia da Educação, 1973, p. 30 [Adaptada]).

O que isso quer dizer, no fim das contas?

Para entender que a percepção do processo educacional é distorcida, observemos a afirmação na qual Malheiro (2010) diz que os pais que possuem filhos em escolas particulares (12%) se sentem confortáveis com a educação dos filhos, aparentemente confiável. Segundo ele, este primeiro grupo acha que o futuro dos filhos está praticamente garantido e em boas mãos. Já os pais que possuem os filhos em escolas públicas (88%) também estão satisfeitos com a educação que os filhos recebem, porque muitos deles não completaram o ensino fundamental (60%) e também nunca ou raramente leem algum jornal (75%). Além disso, o autor afirma que os integrantes deste segundo grupo comparam a escola que tiveram com a dos seus filhos, por isso tendem a associar algumas poucas melhorias materiais com uma educação de qualidade.

Conclui-se, então, que o processo educacional se limita a um futuro profissional promissor que se submeta à sorte das oportunidades? Não precisamos ir longe para perceber que este senso comum está enraizado na maioria das instituições de ensino que se preocupam mais com números do que com pessoas. Por isso, não é acidental que se torne uma tendência das instituições de ensino e das famílias, preocupadas tardiamente com este problema, buscar eliminar o prejuízo que esta mentalidade trouxe.

Qual a finalidade do processo educacional, originalmente?

É evidente que o processo educacional deve ser integral e transcendente, para que alcance seu verdadeiro objetivo. Mas espere, essa conversa de educação integral não é recente? Não mesmo! Desde a Academia, de Platão (387 a. C.) e o Liceu, de Aristóteles (335 a. C.) já se tinha uma percepção desse tipo de proposta educacional, para forjar o homem virtuoso, pleno, íntegro, sábio etc. Vejamos uma breve descrição do que é o processo educacional, originalmente:

[…] se o educando não souber atualizar suas potencialidades, é necessário ajudá-lo. […] Ajudar o educando não é substituir-se-lhe, nem fazer a coisa por ele, nem fazer em lugar dele: é dispor as coisas, o ambiente, dar exemplos, falar, de maneira que o educando, por si mesmo, e só por si mesmo tanto quanto for possível, faça o ato. Quer dizer, enquanto o ato for realmente do educando, enquanto for ato de dentro para fora, será ato seu e por isso o educará; se for de tal modo ajudado que o ato não mais seja seu, […] este ato é deseducativo, pois o educando começou a aprender um ato vicioso e parasitário, feito à custa de outrem. […] Educar, pois, é atualizar [ou melhorar] as potencialidades [humanas], é enriquecer-se o educando por dentro.(TOBIAS, Filosofia da Educação, 1985, p. 71 [Adaptado]).

Será que tal objetivo é alcançável, considerando o atual cenário da educação? Sem dúvida! Porém, pais e responsáveis não podem terceirizar a educação dos filhos, jogando tal responsabilidade para as escolas. É necessário que haja, entre as famílias e as escolas, uma unidade de princípios e valores, para que não haja conflito entre a educação familiar e escolar:

O que se constrói arduamente na família não pode ser destruído com uma atitude irresponsável de um professor. Os pais têm o direito e o dever de conhecer muito bem o ideário do corpo diretivo, os programas do corpo docente e os objetivos educacionais do colégio.(MALHEIRO, A Alma da Escola do Século XXI, 2010, p. 18).

Ainda segundo Malheiro (2010), essa participação dos pais e responsáveis na realidade escolar não acontece, porque os pais confiam cegamente que a convivência aos finais de semana é suficiente para transmitir e enraizar os valores familiares. Porém, considerando o excesso de informações e ferramentas disponíveis atualmente, sem um critério claro e permanente de valores, os educandos se tornam cada vez mais dispersos, alheios à realidade e desprovidos de qualquer senso ético.

Falarei sobre a evolução (ou não) do processo educacional noutro momento, conforme aquilo que se tem sobre a história da educação. Combinado? Espero que essa reflexão tenha sido útil e que possamos entender ou atuar – na medida do possível – na promoção de uma educação que seja, de fato, eficiente e integral.

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